A Megera Domada - William Shakespeare

A Megera Domada (escrita por William Shakespeare por volta de 1590) é uma daquelas histórias que a gente acha que não conhece, mas conhece. É tipo aquele amigo de um amigo que a gente não conhece por nome, mas que insiste em aparecer em todos os lugares onde a gente vai; tipo o final de Psicose - não tem muito como dar spoiler quando se trata d’A Megera Domada.

A história, em linhas gerais, é como segue: uma moça considerada muito desejável (Bianca) não pode se casar até que sua irmã mais velha (Katherine), considerada bastante indesejável, encontre um marido que a aceite. Até que aparece um sujeito disposto a "domar a fera". A partir desta premissa, acontecimentos se dão, constituindo o humor da peça.


Elizabeth Taylor, na adaptação para o cinema. Fonte.


A primeira vista, parece uma narrativa bastante simples, mas com um olhar mais aguçado podemos identificar que a A Megera Domada é uma complexa crítica ao modelo social da época e às “performances” exigidas de ambos homens e mulheres - mas principalmente das mulheres. As performances não se mostram presentes apenas na maneira como os personagens se comportam, mas também na literal performance que os personagens, disfarçados a fim de atingir seus objetivos, executam ao longo da peça.

A primeira performance é vista já nas primeiras páginas, em que um homem é levado a acreditar-se nobre com o intuito de entreter uma corte. A peça que conhecemos por A Megera Domada é, na verdade, uma performance executada frente a este suposto nobre.

Um momento importante para a definição do disfarce como um tema constante na peça é certamente a cena do casamento de Petruchio e Katherine, na qual ele aparece na igreja trajando roupas consideradas ridículas, velhas e puídas. Os outros homens o criticam, ao que ele responde:

“Good sooth, even thus. Therefore, ha' done with words:
To me she’s married, not unto my clothes.
Could I repair what she will wear in me
As I can change these poor accoutrements,
'Twere well for Kate and better for myself.”

Ou, em Português:

“Justamente desta maneira, meu senhor. Mas basta de tanto palavrório. Ela se casa comigo e não com minhas roupas. Caso eu pudesse reparar com tanta facilidade em mim o que ela gasta, como posso trocar estes farrapos, bem estaria para Catarina, e melhor para mim.” Fonte aqui.

(querendo dizer que ela se casará com ele e não com suas roupas)


Ilustração de Klévisson Viana para a adaptação para cordel de Marco Haurelio. Fonte.


A declaração é significativa pois desvela a pergunta de se somos quem somos ou se somos quem aparentamos ser que aparece por toda a peça. Será tudo uma performance? - pergunta o bardo, ou será a performance uma parte do que somos? Assim sendo, a narrativa é muito mais interessante do que parece à primeira vista e traz à tona diversos questionamentos sobre o casamento, o amor romântico e o papel da mulher na sociedade.


Releitura adolescente em 10 Coisas Que eu Odeio em Você, com Heath Ledger e Julia Stiles. Fonte.


A Megera Domada foi adaptada para o cinema inúmeras vezes (sendo uma das adaptações mais famosas a de 1967, com Elizabeth Taylor no papel de Katherine), além das releituras modernas feitas sobre a mesma temática, como o filme 10 Coisas Que eu Odeio em Você, de 1999, e, no Brasil, as novelas A Indomável, de 1965; O Machão, de 1976; e O Cravo e a Rosa, de 2000.


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